Uma mulher de armas que venceu num mundo de homens

Ilda Almeida tem 75 anos e muitas histórias para contar. Quando, aos 18 anos, foi, pela primeira vez, à caça com o padrinho, desconhecia que aquele viria a ser o seu mundo. Quando, aos 35, assumiu o comando da Casa Diana, teve inimigos numa guerra que não comprara. Hoje, aos 75, a batalha acabou, mas Ilda é e será sempre, literalmente, uma mulher de armas.

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É numa aldeia do concelho de Arganil, em Coimbra, que começa esta história. Numa altura em que os estudos não iam muito além da 3.ª classe. Numa altura, em que as raparigas não sonhavam com a cidade. Mas Ilda, era pouco assim. Quando fez 17 anos, fez finca pé e os pais não tiveram outro remédio. Enviaram-na para Lisboa, para viver em casa de um casal amigo e estudar, como tanto queria. «Eles não queriam que eu viesse para Lisboa, mas eu tinha muito esse desejo. Um dia disse-lhes ‘Ou vou de livre vontade, ou um dia acordam e não estou em casa.»

E assim foi. A vida, a partir daí, fê-la na cidade. Estudou no Colégio Sá de Miranda, na Alliance Française e no Cambridge. Sempre sob a alçada dos seus segundos pais, que começou a tratar por padrinhos. «O meu padrinho era um homem austero e um apaixonado da caça. Nasceu em Lagos e desde jovem que percorria os campos à caça», recorda Ilda Almeida. E foi essa paixão que transmitiu à afilhada que aos 18 anos empunhava uma arma que ainda hoje guarda. «A fábrica em Itália fabricou-a propositadamente para mim. Tem o meu nome gravado a ouro no cano. Hoje em dia já não caço, mas ia muito com o meu padrinho para Pegões e para Sagres. O meu mês de férias da escola era passado assim. Caçávamos todos os dias. Levantava-me todos os dias as 6h da manhã com uma alegria imensa», conta.

Ilda foi estudando e ficando cada vez mais ligada à loja que o padrinho, João Côrte-Real Trigoso, fundou em 1948. Era o seu braço direito. Enfrentava com ele a concorrência dura, que se vivia na altura. E por isso, quando este faleceu, assumiu o comando técnico daquela batalha. «Os colegas faziam-me a vida negra. Um dia, o dono de outra espingardaria levou três dos meus funcionários, tentando derrubar-me e espalhou por todo o lado que a casa estava falida. Todos faziam o possível para que não levasse o negócio para a frente. E não era só por ser mulher, era porque esta casa era muito conceituada. Cá e lá fora. Eles pretendiam que a casa fechasse, mas não conseguiram porque não deixei», atira, confiante do serviço.

Afinal, também tinha elogios: «Um senhor veio aqui pela primeira vez, encostou-se à vitrine das armas curtas. Eu estava a atender outro senhor, a explicar-lhe as regras de segurança das armas. Ele continuou encostado a assistir. No fim, disse-me que estava encantado, que era um apaixonado de armas, que não tinha ideia que existisse uma mulher com tanto conhecimento de armas e munições, ainda para mais tão fina e delicada. A partir daí foi um grande cliente nosso até falecer.»

Hoje, os tempos mudaram, mas a casa continua a ter bons clientes. «O Manuel Alegre esteve aqui a semana passada, é um cliente antigo, o filho também é nosso cliente. A família Carvalho Martins, a família Roquette…», enumera, referindo que é a caça a área que tem maior procura na Casa Diana. «É para classes com poder económico. A caça sempre foi um desporto caro ao longo dos anos. E continua a ser. Mais direcionado para as elites. A arma mais cara que temos cá é a do meu padrinho, o fundador. Está avaliada em 20 mil euros. Mas não está à venda. Nova custaria uns 100 mil», garante.

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Mas claro que também tem muitas visitas de curiosos. Entre eles, muitos jovens. «Um jovem deve estar devidamente elucidado e saber como deve utilizar uma arma. Tendo o conhecimento, não tem aquela curiosidade de ir mexer. Um dos grandes erros da sociedade é esconder o conhecimento à criança. Vêm aqui muitos jovens ali do Liceu Camões e fazem imensas perguntas. Adoro conversar com eles. Não tenho problema nenhum com uma arma, seja qual for o calibre, mas não abro um canivete, por exemplo, porque tenho medo de me cortar», confessa.

E talvez seja por isso que o neto, aos 11 anos, já se mostre interessado. «Ele tem a paixão. Se tivesse 20 anos, ia tentar que ficasse com a Casa», admite ainda Ilda. «Vou inscrevê-lo no clube de tiro para fazer tiro com pressão de ar. É saudável. Dá uma tranquilidade ao jovem porque é preciso compenetração para fazer tiro. É importante para a formação do cidadão», confirma.

Enquanto o neto não cresce, Ilda vai até à loja diariamente. Ao seu lado tem Horácio, o companheiro de longa data, que um dia o padrinho pôs à prova. «Não me deixava namorar. Um dia conheci o Horário. Ele começou a aparecer, a namoriscar. E já namoriscávamos há um tempo, mas nunca tínhamos saído. No dia em que fui receber um diploma da Alliance Francaise ao antigo hotel Estoril Sol, ele apareceu no baile. Dançámos. E o meu padrinho ficou logo de olho. Quando regressámos, perguntou quem ele era. Disse-me logo ‘Cuidado com isso’», recorda, sorridente.

Ilda e Horácio continuavam a sair, mas sem namorar. E foi a madrinha, que sabia da paixoneta, que um dia o convidou para ir até lá a casa. «Quando eu e o meu padrinho chegámos, ele já lá estava. Como o meu padrinho era uma pessoa educada não o ia por na rua. Era uma boa estratégia. Mas eu não sabia de nada. Achei que estava perdida», adianta Ilda. O ar austero de João Côrte-Real Trigoso impunha respeito. E a resposta que deu ao futuro genro também: «Tudo bem, mas não é ela que vai sair consigo, você é que vai sair connosco.» A partir daí, começaram a passar todos os fins de semana fora, no Alentejo. Mas não era caçador. «Nunca me apaixonei pela caça, e também não lhe queria fazer concorrência [risos]», confessa Horácio.

«Passado um ano, o meu padrinho teve uma conversa com o Horácio e autorizou a marcação do casamento. A verdade é que ele achava que o meu futuro marido como funcionário bancário não ganharia o suficiente para me dar uma vida como a que ele queria que eu tivesse. Mas eu disse-lhe sempre que o dinheiro não é o mais importante. O importante é o amor», conclui.

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Fonte: DN

 

 

 

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